Imagine uma criatura com 20 braços, quase um metro de diâmetro, que se move lentamente pelo fundo do mar e carrega um superpoder: salvar ecossistemas inteiros. Parece ficção científica, mas é a estrela-do-mar-gigante (Pycnopodia helianthoides), também conhecida como estrela-do-mar-girassol. Depois de quase desaparecer da costa da Califórnia, essa gigante dos oceanos está voltando — e os cientistas estão animados com o que ela pode fazer.
O que torna essa estrela-do-mar tão especial?
A Pycnopodia helianthoides não é uma estrela-do-mar comum. Enquanto a maioria das espécies tem cinco braços, essa pode ter entre 16 e 24 — e não é raro encontrar exemplares com 20. Seu corpo é macio e aveludado, em tons que vão do laranja-vivo ao roxo. E, sim, ela é a maior estrela-do-mar do mundo: pode atingir 1 metro de ponta a ponta e pesar até 5 quilos.
Mas o que realmente impressiona é sua velocidade. Para uma estrela-do-mar, ela é uma verdadeira atleta: consegue se deslocar até 1 metro por minuto usando seus milhares de pés ambulacrários (pequenos tubos que funcionam como ventosas). É o suficiente para perseguir ouriços-do-mar, seu prato favorito.
Por que ela sumiu da Califórnia?
Entre 2013 e 2014, um surto devastador de uma doença conhecida como síndrome do desperdício de estrelas-do-mar (sea star wasting syndrome) atingiu a costa oeste dos Estados Unidos. A Pycnopodia foi uma das mais afetadas: estima-se que mais de 90% da população tenha morrido. A doença faz com que os braços das estrelas se desintegrem, virando uma massa amorfa. Foi um colapso ecológico silencioso.
Sem a estrela-do-mar-gigante para controlar os ouriços-do-mar, esses ouriços se multiplicaram descontroladamente. E eles têm um apetite voraz por algas, especialmente as chamadas florestas de kelp — as grandes algas marinhas que formam ecossistemas subaquáticos ricos em biodiversidade.
O que são as florestas submarinas e por que precisam ser salvas?
As florestas de kelp são como as florestas tropicais do mar. Elas fornecem abrigo e alimento para centenas de espécies: peixes, lontras, crustáceos, moluscos e até aves marinhas. Além disso, absorvem grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, ajudando a combater as mudanças climáticas.
Quando os ouriços-do-mar se proliferam, eles pastam as algas desde a raiz, transformando florestas exuberantes em desertos subaquáticos — as chamadas “barrens” (terrenos áridos). Na Califórnia, a perda de kelp foi drástica: em algumas regiões, até 95% das florestas desapareceram.
O retorno da salvadora de 20 braços
Agora, os cientistas estão observando um fenômeno que dá esperança: a Pycnopodia helianthoides está voltando. Em 2023 e 2024, mergulhadores e pesquisadores do Aquário da Baía de Monterey e de outras instituições começaram a avistar exemplares saudáveis em áreas onde a espécie havia sumido. E, mais importante, onde elas aparecem, os ouriços-do-mar diminuem e o kelp começa a se recuperar.
É como se a estrela-do-mar-gigante fosse uma engenheira ecológica: ao caçar ouriços, ela permite que as algas voltem a crescer, restaurando todo o ecossistema.
Como a ciência está ajudando essa volta?
Pesquisadores estão monitorando de perto o retorno da espécie. Eles fazem censos subaquáticos, coletam amostras de DNA ambiental (eDNA) e estudam a genética das populações para entender se elas estão se recuperando naturalmente ou se precisam de ajuda humana.
Além disso, existem programas de reprodução em cativeiro. No Aquário da Baía de Monterey, cientistas conseguiram criar larvas de Pycnopodia em laboratório e estão desenvolvendo técnicas para reintroduzi-las em áreas onde a espécie ainda não voltou. É um trabalho minucioso, mas que pode ser a chave para salvar as florestas de kelp.
O que podemos aprender com essa história?
O caso da Pycnopodia helianthoides mostra como as espécies estão interligadas em um ecossistema. A perda de um único predador pode desencadear um efeito dominó que transforma paisagens inteiras. Por outro lado, a recuperação de uma espécie pode trazer de volta a vida a regiões devastadas.
Isso também nos lembra que a natureza tem uma capacidade impressionante de se regenerar — desde que lhe demos uma chance. O retorno da maior estrela-do-mar do mundo não é apenas uma boa notícia para a Califórnia; é um sinal de esperança para ecossistemas marinhos ameaçados em todo o planeta.
O futuro das florestas submarinas
Ainda há muito trabalho pela frente. A síndrome do desperdício de estrelas-do-mar pode voltar, e as mudanças climáticas continuam aquecendo os oceanos, o que estressa tanto as algas quanto os ouriços. Mas, por enquanto, os cientistas comemoram cada avistamento de uma Pycnopodia saudável.
Se você puder visitar a costa da Califórnia, talvez tenha a sorte de ver uma dessas gigantes de perto — mas não se esqueça: elas são mais do que uma criatura fascinante. São guardiãs de florestas submarinas que sustentam a vida no oceano.
E essa é a beleza da ciência: descobrir que uma estrela-do-mar de 20 braços pode ser a heroína que o mar estava esperando.